Tag Archive: Poema do Tom



Seis meses sem um mísero poema.

Pari tantos e estou seco.

Mas quantos poetas sucumbiram

por reverberar sua fala

e quantos outros tiveram

de ser memorizados

para não se verem esquecidos! Continue lendo


Anjos mendigos vagam atordoados pelas ruas:

ganharam a graça de se tornarem humanos

mas não sabem o que fazer com isso.

Adentram igrejas, miram a testa do Cristo

e se perguntam “por que?”.

São humano-impostores catando vestígios da divindade perdida. Continue lendo


A estação dos homens dizimados.

Os zumbis cheiradores de crack.

As mulheres-frutas servidas no fast-food

televisivo.

Comprem, pelo amor de Deus,

meus órgãos baratos,

avisa o homem-sanduiche! Continue lendo


Quem sou eu?

Sou o amado de Deus.

Quem é Deus?

Meu namorado.

Que fez para merecer isso?

Durmo embriagado,

carrego cruz,

masturbo-me ajoelhado.

Sois feliz?

Tenho compaixão.

Onde se amam?

No banheiro, no corredor,

na sala de projeção, no elevador.

Quem é mais fiel?

Deus compartilha seu corpo com muitos.

Quem beija melhor?

Ele, quando faz as barbas

ou pede-me para tocar suas chagas.

Quem ama mais?

Sou compulsivo,

faço greve de fome

e não durmo antes do galo cantar.

Deus manda bem?

É penitente.

 

(Tom, a risco da excomunhão)


O rapaz que no momento ama-me

profana-me

o corpo

com ambíguo humor.

Cheira-me, toca-me, sujeito desconexo.

Provisório na sua imaginação,

plural e condescendente.

Mergulhando meu estômago

como de viés o faz por sobre o ventre

em felicidade mortal. Continue lendo

AGENDA


Conviver o arrependimento

bafejar os copos de vinho

lavar finalmente aqueles lençóis que continham o cheiro do corpo amado

reinventar fantasias

acreditar na veracidade do excesso de mentiras

juntar os cacos

lavar as dobras

mudar a marca de perfume

tirar da agenda os amigos mortos

descansar porque ninguém é de ferro

 

TOM


Tua família

viajou quilômetros

para despejar no mar

tuas cinzas.

Eu fiquei com o melhor de ti.

Eu comi teu coração.

Eu devorei tuas coxas.

Temperei com óleo as reentrâncias do corpo

e dentre dele naveguei os mesmos quilômetros dos teus.

Meu único pecado

foi  não me ter feito oceano

para teu último destino.

TOM


Vomita

na borda d acama

lantejoulas

vidrilhos

paetês

além

do único segredo

guardado

a sete chaves.

 

TOM


“Nem sempre os homens morrerão em silêncio”

J.M.Keynes

Acreditamos

que os animais nos pertencem

e que  ao pagar temos soberania

sobre os corpos dos michês e das prostitutas

ou dos mendigos

cujos órgãos surrupiamos

para salvar este ou aquele filho.

Acreditamos em vão. Continue lendo


Eu,pecador,titubeante e sujo,

andarilho de bares e bacantes,

olhar soturno de um replicante,

confuso dentro do destino mudo.

Impôs-me a sorte de um caminho avaro,

persigo em riste a glória que bafejo,

reproduzindo o luto do desejo,

dilacerado deste amor macabro.

Coberto em musgo a lira que dedilho,

subordinado,atrevido e instável,

buscando inútil o perdão amável,

o altar da dor a que me fez castigo.

Eu,pecador, de tudo me embriago.

TOM