Tag Archive: Contos do Tom



Ele cumpre em todo final de ano o mesmo ritual: liga pros classificados” e solicita o garoto que dormirá consigo esta noite.

Por quê no último dia do ano?

O garoto deve se parecer um pouco com o filho que não teve e que  não pretende.

No meio da conversa deve sugerir que está cansado desta vida.

Não importa a cor – ainda que não conheça nenhum rapaz de programa negro.

Tentará convencê-lo a não mais se prostituir – claro, depois de dormir consigo e comemorarem a passagem de ano juntos.

Ele cumpre em todos os finais de ano o mesmo ritual desta noite.

TOM

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Otávio saiu de casa porque a cerveja estava quente e precisava beber alguma coisa, afinal,era sexta-feira!

Foi por absoluta coincidência que Otávio flagrou naquele bar que sempre frequentava sua namorada, quase noiva,em companhia de um outro rapaz.Eles se beijavam.

Pacientemente, Otávio pesquisou a vida do rapaz descobrindo que fazia “bico” para sobreviver e ali mesmo fez-lhe uma proposta, uma quantia irrecusável para deixar a namorada ,sua noiva.

Estão juntos até hoje.

TOM


O corpo de B fora atirado pela janela e a polícia confiscou seus parcos pertences.

Havia um brinco em formato de maçã nos lóbulos de B.A polícia confiscou também.

Na noite anterior tomamos sorvete na saída do cinema. Ele sonhava com Veneza e uma camisa de flores estampadas. Admirava João Cabral de Melo Neto pela musicalidade nordestina dos versos de “Morte e Vida Severina”.

Colecionava frascos vazios de perfumes e rótulos de bebidas. Não fumava e seu corpo adolescente era disputado pelos cínicos da Savassi.

Defenestram B sobre a calçada e a polícia confiscou seus brincos de maçã. Apenas um, porque o outro fora rasgado com toda a cartilagem.

TOM


Todos os erros. Todos os erros do mundo. Todos os erros e os erros do mundo também.

Tenho em mim todos os pecados do mundo. Mas não confesso crimes.confesso pecados e erros,mas não confesso crimes. Continue lendo


Todas as noites os serafins visitam nossas casas e pedem que tenhamos cuidado com os resíduos deixados sob a terra onde moram detritos mais nobres que os humanos ali aleatoriamente depositados.

Eles nos ensinam a mastigar brasas e manter o corpo em ponto imaterial para ocasiões ainda não detalhadas. Continue lendo



O canibal da Rua esquerda ocupou o noticiário da semana.

Suas características são comuns e já esquartejou treze. Continue lendo


Defronte ao mar para sempre engolimos a maresia da despedida.

A última refeição avinagrou-se.

Pedi perdão mil vezes temendo sozinho atravessar o litoral.

Procurei alojar-me entre rochedos inexistentes e seu corpo impondo-se.

Os ombros queimados de sol e os lençóis estendidos como redes.

Tu te despindo frente à luz de espelhos e nossos corpos viris produzindo estilhaços

Defronte ao mar para sempre.

TOM


Todas as vezes que  aproxima-se outubro, penso na diversidade das estações.

“Vamos dormir juntos hoje?”,foi o que perguntei a Marla,minha recente namorada. Ela disse não e lá fora o tempo aquecia a varanda.Quis de atirá-la pela janela. Continue lendo


O meu nome é Páris e matei Lucrécia fumando um cigarro.

Eu creio nos bares e detesto conselhos.

Matei Lucrécia na data do seu aniversário,

ela trajava um vestido azul de costas nuas – mas não tive coragem de nelas apagar baganas.

Naquele ano,minha escola de samba saiu vitoriosa e substituíram a porta-bandeira.

TOM


Vejo-te chegar dentro da noite, eu esperando-te como convém a todo ser humilde apaixonado.

Espero-te sempre.

Espero-te fugazmente em palavras não pronunciadas.

No chuveiro banhas o corpo para livrar-se do cheiro de motel, mas os odores transpiram.

Abro mais uma cerveja e busco compensar a ínfima alegria.

Como sois belo em tua sordidez de ser humano que trai!

Teu corpo fresco não disfarça o frisson do sexo recém feito.

Acolhe-me em teus braços enquanto o choro se confunde com os respingos do teu peito ainda úmido.

TOM