Tag Archive: Contos



(Alguns anos pós-Dolly)

Decorreram cinco dias desde que haviam-no enterrado. Elvis era uma bicha das mais afetadas, daquelas que costumam esticar o mindinho ao levar o talher à boca. Trabalhávamos juntos na redação de uma revista eletrônica destinada a compulsivos consumidores de índices de mercado financeiro on-line. Continue lendo

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Conto de Raduan Nassar

Uma espécie de conselho que se dá a um provável senhor advogado ou profissão afim para sair do escritório aí pelas três da tarde:

“Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, e se achegue depois junto à rede. Largue-se nela, goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.”


Vejo-te chegar dentro da noite, eu esperando-te como convém a todo ser humilde apaixonado.

Espero-te sempre.

Espero-te fugazmente em palavras não pronunciadas.

No chuveiro banhas o corpo para livrar-se do cheiro de motel, mas os odores transpiram.

Abro mais uma cerveja e busco compensar a ínfima alegria.

Como sois belo em tua sordidez de ser humano que trai!

Teu corpo fresco não disfarça o frisson do sexo recém feito.

Acolhe-me em teus braços enquanto o choro se confunde com os respingos do teu peito ainda úmido.

TOM


“(…) Ema e Bárbara eram tão inseparáveis quanto seus maridos, colegas de escritório. (…) No momento em que Ema depositava o refresco na mesa, ouviu-se um estalo.
– Porcaria, meu sutiã arrebentou. Continue lendo


Nunca mais Álex, teus mamilos botão-de-rosa que o primeiro resvalar de unha lacera; os dedos rápidos para dentro da minha boca, essa tua mania nunca mais.  Continue lendo


João Jerônimo se fez caminhoneiro e conhecia todos os caminhos.

João Jerônimo não tinha pruridos, não tinha pudores.

Por companhia tomava quem na estrada lhe apontasse: moças, rapazes e prostitutas.

Das moças, gostava das coxas.

Dos rapazes e prostitutas,o lirismo e a coragem.

João desapareceu sem deixar vestígios.

Dizem que subiu aos céus e está sentado ao lado do santo protetor.

T   O   M


As luzes já se apagaram, meu bem./ As baleias não querem que mais nada ocorra./ Vou ler esse livro pela última vez./ Mas você tem que dormir, p*##@.

O gato se aconchega na gatinha/ A ovelha no cordeiro, o filhote na cachorra./ Você está confortável na caminha./ Então, por favor, vai dormir, p*##a

A hora de dormir pode ser um verdadeiro pesadelo, sem trocadilhos, para os pais.

Adam Mansbach tinha este tipo de problema com sua filha de 2 anos, quando decidiu escrever um livro real, que realmente mostrasse o desespero desde momento caótico.

Em forma de poesia, “Vai D0mir,P*##@” é um livro infantil para adultos, deixando de lado os animais fofos e as histórias singelas que pretendem fazer com que a criança adormeça em instantes.

Lançado oficialmente em 14 de junho nos Estados Unidos, tornou-se rapidamente um best-seller, ocupando o primeiro lugar das principais listas de mais vendidos do país.

Ele deve chegar ao Brasil em 20 de julho próximo.

Fonte : Folha Online


 

Acompanhava o falecimento de rosas cujas pétalas despencavam apavoradas.

Davam-na por louca, a pobre Glória, estendida no parapeito voltado para a rua  donde desceria o cortejo. Continue lendo


Na hora de pôr a mesa éramos cinco:o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu.

Depois a minha irmã mais velha casou-se.

Depois, a minha irmã mais nova casou-se.

Depois, meu pai morreu.

Hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está na casa dela, menos a minha irmã mais nova, que está na casa dela, menos o meu pai, menos a minha mãe viúva.

Cada um deles é um lugar vazio nesta mesa onde na hora de pôr a mesa,seremos sempre cinco.

Enquanto um de nós estiver vivo,seremos sempre cinco.

[Conto de José Luiís Peixoto]

 


Estou perdido neste motel no fim do mundo.

Vejo um clarão vermelho e sobre a mesa uma toalha gasta.

Lá embaixo a cidade imperfeita de contornos.

Não há serviço de quarto, só uma mulher velha e robusta perguntando meu sobrenome: ”Conheço mais de mil Josés”.

Sei que carregamos a sina do lugar-comum e somos tão triviais quanto este banho morno e meu corpo sem capricho.

Este motel barato, esta cidade esquecida por Deus é cenário perfeito para suicidas, todavia, guardo dentro de mim um silêncio inviolável e pouca aptidão para a morte.

Tom