DEZ DIAS ANTES DE MORRER

Um passageiro ao longe, estanque,

salta amarrado a um paralelepípedo.

De mãos dadas (e disfarçadas) com Miguel

devoro um sanduíche.

Saímos cantarolando à paisana do motel.

O cheiro de nossos beijos queima o laranja do céu –

esta rua de quadrados contundentes

ardendo em nossos pés.

Não somos hediondos

como o amor que eles preconizam –

bastardos,talvez;ingênuos,quem sabe,

entremeio aparências , coincidências,

além da lúdica determinação

de sermos periodicamente felizes.

Viado, viado, viado!

Entre a verdade e o oco desta frase,

o que sou,clama por mim

nos telhados,nas colunas,

nos mármores e nos estofados.

Miguel vive sorrindo como se não fizesse

parte desse mundo.

como se não guardasse dentro do corpo

o vírus indelével

dançando entremeios nossos gemios

e suores.

CONTRABANDO

 

Seis meses sem um mísero poema.

Pari tantos e estou seco.

Mas quantos poetas sucumbiram

por reverberar sua fala

e quantos outros tiveram

de ser memorizados

para não se verem esquecidos!

A poesia nos salva do patético

e torna sublime a vida precária.

Tanto caos me apavora!

Vou comer carne crua

e vomitar as entranhas

em busca do primitivo renascimento.

Seis meses, meu pai, e nenhum poema.

Só charco de alho e querosene!

Só a atrofia de miragens

e o corpo demolido!

Nenhum milagre, nenhuma miríade!

Apenas a pele

exposta ao oco da modernidade.

Não quero mais este ofício

e confesso qualquer pranto.

Doem demais marimbondos

picando o estômago!

Não sei tecer espirais,

sou todo contrabando!

 

ANJOS MENDIGOS

Anjos mendigos vagam atordoados pelas ruas:

ganharam a graça de se tornarem humanos

mas não sabem o que fazer com isso.

Adentram igrejas, miram a testa do Cristo

e se perguntam “por que?”.

São humano-impostores catando vestígios da divindade perdida.

Anjos mendigos comem restos de hambúrgueres pensando em ambrosias.

Dão o rabo a bêbados em banheiros de rodovias.

Anjos mendigos perambulam por bordéis procurando entender a santidade das putas.

Anjos mendigos saltam de prédios na esperança do vôo.

Se abraçam a estátuas de outros anjos em busca de consolo.

Anjos mendigos se empregam como trapezistas ou kamikazes pára-quedistas.

Anjos mendigos

são

a catarse

involuntária de Deus.

PASSIONATA PARA UMA LITURGIA PAGÃ

Quem sou eu?

Sou o amado de Deus.

Quem é Deus?

Meu namorado.

Que fez para merecer isso?

Durmo embriagado,

carrego cruz,

masturbo-me ajoelhado.

Sois feliz?

Tenho compaixão.

Onde se amam?

No banheiro, no corredor,

na sala de projeção, no elevador.

Quem é mais fiel?

Deus compartilha seu corpo com muitos.

Quem beija melhor?

Ele, quando faz as barbas

ou pede-me para tocar suas chagas.

Quem ama mais?

Sou compulsivo,

faço greve de fome

e não durmo antes do galo cantar.

Deus manda bem?

É penitente.

(Tom, a risco da excomunhão)

EU, MEU PAI E DEUS

Eu, meu pai e Deus

enfiamos a mão no peito

para alimentar os cavalos de fel.

 

Eu, meu pai e Deus

brincamos  de chutar os humanos

em seu quintal de brinquedos.

 

Eu, meu pai e Deus

navegamos de asa delta

no aeroporto de helicópteros.

 

Eu, meu pai e Deus

convidamos Misse Death

para um jantar regado a gafanhotos.

 

Eu, meu pai e Deus,

somos

a

Nova Trindade Pop

DEUS, VOCÊ ESTÁ AÍ?

Ele mora num pardieiro

na parte miserável da cidade.

Ele controla o silêncio

e a sombra que confronta

seus passos.

Os olhos infravermelhos

invadem de melancolia

a tudo o que observa.

É Jarecki, antes Davi,

depois de ser molestado pelo pai

ainda aos 15.

Nada pede.

Em nada crê.

Porque tudo

se tornou

tarde demais.

MINOTAURO

Na data

do teu suposto aniversário,

visito o local

de tua suposta

última morada

defronte o nada.

Repito os passos,reensaio os gestos,

galgo em vão

as bordas

mas só deparo

um cenário gasto.

Na data

do teu suposto aniversário,

observo com assombro

os mil pedaços

que brotaram

deste labirinto

sem

Minotauro.

INTERMEZZO

Vigésimo primeiro século

neste planeta-presídio

e meu sexo

continua proibido.

 

Os anjos do Armagedon

incendeiam

Londres e New York.

 

Estamos muito próximos

do Inverno Nuclear.

 

Estou velho

em minha febre palúdica

observando a barbárie

cometida

contra a última manhã,

enquanto te abraço sem riso,

procurando no ar

indícios de sol

nas paredes sujas

deste abrigo.

PEDINDO DESCULPAS AO SENHOR

Perdão, Senhor,

tua criatura o decepcionou.

Ela anda atirando seus filhos

e suas filhas pelas janelas

quando não

arrastando-os indefensos pelas ruas.

O que deveria ser um relicário de doçuras

acabou se transformando

em um roteiro amargo de desilusões.

Decepcionamos a Ti, Senhor.

Não sabemos amar nossos irmãos

como a nós mesmos,

não respeitamos o próximo

do alto de nossa arrogância

e orgulho ferido.

Mas reciclamos o lixo

e clonamos os animais

que exterminamos.

Falhamos, meu Deus.

Construimos fortalezas de luxo

denominadas condomínios

rodeadas de subúrbio

onde não há domínios

de ninguém.

Só miséria, dor e balas.

Perdão, Senhor

PRIMAVERA DE EDUARDO

No mês de setembro,

Juliano,

que prefere ser chamado de Eduardo,

transou com

um motorista de táxi,

um vendedor de crack,

um bêbado,

um cantor decadente,

um trocador de ônibus,

um pedreiro,

um feirante

e um vigia de prédio.

 

Nenhum deles

foi ao seu enterro,

mas,

inexplicavelmente

seu túmulo permanece florido.

 

No mês de setembro…

ALCINADO DEVORA O ÚLTIMO CIGARRO

Pornô incrustado na pele.

Hálito de puto desfrutando a noite.

Uma cicatriz empedrada no ventre feito um rasgo de lâmina seca.

Algo regurgitando no estômago – um sabor ácido de guacamole.

Corta aliviado o semáforo molhado.

Asfixiado,engole uma golfada de vento mirando o outro lado.

Odor de sêmen ressequido nos pêlos.

Dia ruim voltando para casa – um intinerário de ratos.

Alucinado devora o último cigarro.

DESTINY

Não quero marcas digitais nos copos

ou sombras desabando sobre espelhos.

Não quero tapetes desonrados

pelas máculas do tempo.

Retirem dessas boca

bottons emergentes.

Poupem-me das sinfonias baratas de Tvs a cabo.

Se pretendem idealizar um novo Frankenstein

que seja irrepreensível.

Como causa dissabor

o evidente sorriso de Mona Lisa!

Gelo demais nessa cerveja,

ereção antes da hora,

corte inacabado de bisturi,

gozo imprevisto,

meia-voz,

meio termo,

barbitúricos que falham

após o quarto drinque!

Ah, o indiscreto charme,

a luz inadequada!

Aguardemos o momento

da suprema mutação

farto que estamos da epidemia

denominada

destino!

SLAVE TO LOVE

Maurício me ama, Maurício não me ama. Conheci Maurício num velório. Ele era o único filho que não chorava.

Carlos me ama, Carlos não me ama. Seu primeiro casamento dera muito certo; o segundo,nem tanto;o terceiro, um desastre.

Yago me ama,Yago não me ama.Detesta boates e dry martini. Fuma cigarros mentolados, o que deixa seu beijo com sabor de avaria .

Lelo me ama,Lelo não me ama. Degusta literatura barata,literatura pulp.

Teo me ama, Teo não me ama.Tem impulsos suicidas puramente exibicionistas e sempre mija quando goza.

Roberto me ama, Roberto não me ama. É hipocondríaco e considera o orgasmo uma anomalia.

Mário me ama, Mário não me ama. Aposta em tudo. Aposta na rinha, nos cavalos. Aposta que ficará rico um dia.

Caco me ama, caco não me ama. Seu projeto de vida inclui o Himalaia, a Rota 66 e o Caminho de Santiago Compostela.

Fausto me ama, Fausto não me ama.Já fez contato e precisa trocar com urgência suas lentes pra evitar algum acidente de trânsito.

Teresa me ama, Teresa jura que me ama. Mas ainda não consegui convencê-la a me apresentar a seu irmão.

LOVE LETTER A JAMES DEAN

Querido Jimmy:

Daqui de onde moro

posso intrinsecamente pensar em ti.

A paisagem amena faz lembrar o verão agridoce de Fairmount.O olhar não limita

o que nos faz míopes.

Ouço gemidosconfessos

no exercício da personagem.

Ouço grunhidos

e um menino que procura-se

nos destroços de cenários

por uma rodovia indefinida.

Querido Jimmy,

que amor desmesurado

tornou inconstante

a liberdade e a memória?!

O que fez clandestina

a necessidade de ousar?

Quem permitiu que partisses obstinado

antes

que eu ti

me aproximasse!?

GAY

Minha vida é gay,

Minha vontade é gay,

Meu desejo é gay.

Minha saúde é gay,

Minha casa é gay,

Meu tapete é gay.

Meu gato é gay,

A cor da minha pele é gay.

Eu tenho sonhos e bocejos gays.

Minha cerveja é gay.

Se eu ficasse grávido, teria filhos gays.

 

Compro bananas gays,

Canto músicas gays,

Escrevo poemas gays.

Minha aura é gay,

Meu Deus é gay.

Levo porradas,

Cusparadas

E desaforos gays.

 

A fogueira de Joana D’Arc era gay.

As flechas de São Sebastião eram gays.

O Porsche Spyder de James Dean foi gay.

 

Sou gay em meu tempo e lugar

Como esse frasco de vidro temperado

Ou a porcelana limoges

Fazendo par

Com o faqueiro

Que repousa solene

Em seu estojo Black.

 

Sou gay ton sur ton,

Vaporoso como as

Astromélias vermelhas

pipocando na primavera.

 

Sou gay montanhoso,

Sofisticado postiche

Ou rústico cachepô

Entre a varanda e a vida.

 

Sou gay terracota,

Cromado;

Gay alpaca, gay bambu.

Gay!

 

Meu fogão é gay,

Minha cutícula é gay,

Minha saladeira é gay.

Minha parede é gay,

Meu pé de manga é gay,

Minha fazenda é gay

(se eu tivesse uma,ela seria).

Meu semáforo é gay

(por que eu teria um semáforo?!)

 

Todo motel é gay,

Toda boate é gay,

Todo vestiário é gay,

Todo banheiro é gay,

Toda esquina é gay.

 

Minhas verdades são gays.

Minha ressaca é gay.

Meu cacófato é gay.

 

Gay, gay, gay !

EU, PECADOR

Eu,pecador,titubeante e sujo,

andarilho de bares e bacantes,

olhar soturno de um replicante,

confuso dentro do destino mudo.

Impôs-me a sorte deum caminho avaro,

persigo em riste a glória que bafejo,

reproduzindo o luto do desejo,

dilacerado deste amor macabro.

Coberto em musgo a lira que dedilho,

subordinado,atrevido e instável,

buscando inútil o perdão amável,

o altar da dor a que me fez castigo.

Eu,pecador, de tudo me embriago.

A RESPOSTA DO SANGUE

“Nem sempre os homens morrerão em silêncio”

J.M.Keynes

Acreditamos

que os animais nos pertencem

e que  ao pagar temos soberania

sobre os corpos dos michês e das prostitutas

ou dos mendigos

cujos órgãos surrupiamos

para salvar este ou aquele filho.

Acreditamos em vão.

Acreditamos ser donos

da linguagem e do tempo.

Modificamos a linguagem,

interferimos no tempo

com a objetividade

de quem lambe um sorvete

ou um prato de sopa.

De onde provém tamanha prepotência?

Até quando suportaremos o surto

derivado

destes carros blindados

sem sequer percebermos

que a moldura que protege a gaiola

oculta um pássaro ensanguentado?

TOM