(…) não existe amor que não seja obsessão.

Se não, como definir e esclarecer os motivos pelos quais alguém é atraído especificamente por alguém e o ama apaixonadamente?

Por que, tantas vezes, o amor é uma ponte de mão única, onde o sentimento entregue não é retribuído?

E por que, ao contrário, é algumas vezes misteriosamente retribuído e a química da felicidade funciona?

Como explicar essas incógnitas senão pela permanente obsessão de romper os limites entre o eu e o outro?

O que nos move em direção à absoluta gratuidade de amar e ser amado?

Seria a procura da outra parte que nos falta, metafisicamente, porque nascemos apenas metade, como diria a mitologia grega?

Seria a busca da mãe perdida, como sugeririam os psicanalistas?

Ou uma tentativa de romper a indiferença do mundo e reconciliar o que somos com o que não somos, conforme diriam certos filósofos?

Seria o amor uma tentativa de nos compreendermos através do espelho do outro?

Ou uma deslavada tendência ao absurdo, um mistério puro e deliciosamente elaborado pela natureza, a fim de tornar mais definitivo, mais irrefreável e mais perturbador o impulso para fora de nós, impondo a desordem ao mundo e aos espíritos amorosos?

Então, o amor seria uma grande brincadeira da natureza, entediada com a ordem da vida, e nós viveríamos uma molecagem básica, quando amássemos.

João Silvério Trevisan em “Em Nome do Desejo”