Category: LITERATURA BRASILEIRA



Uso a palavra para compor meus silêncios.

Não gosto das palavras fatigadas de informar.

Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão

                                            tipo água pedra sapo

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A lua foi ao cinema,

passava um filme engraçado,

a história de uma estrela

que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas

uma estrela bem pequena,

dessas que, quando apagam,

ninguém vai dizer, que pena! Continue lendo


“De tudo ficaram três coisas:

a certeza de estar sempre começando,

a certeza de que era preciso continuar,

a certeza de que tudo poderia ser interrompido”…

O escritor mineiro Fernando Sabino,

abrindo a sensacional trajetória

de Eduardo Marciano em “O Encontro Marcado


O astrônomo lê o céu, lê a epopeia das estrelas.Ora, direis, ouvir & ler estrelas.Que estórias sublimes, suculentas na Via Láctea.O físico lê o caos.Que epopeias o geógrafo lê nas camadas acumuladas num simples terreno.Um desfile de carnaval, por exemplo, é um texto.Por isso se fala de “samba-enredo”.Enredo além da história pátria referida.A disposição das alas, as fantasias, a bateria, a comissão de frente são formas narrativas.

Uma partida de futebol é uma forma narrativa[…].

Não é só Sherazade que conta histórias. Um espetáculo de dança é narração. Uma exposição de artes plásticas é narração. Tudo é narração.

“Ler o Mundo” de Affonso Romano de Sant’Ana, Editora Global


Cinco poetas dos anos 70 não se enquadravam nos padrões estabelecidos pela ditadura militar.

Os versos de Ana Cristina César, Cacaso,Chacal, Francisco Alvim e Paulo Leminski usam psicodelismo e irreverência para abordar velhas angústias da alma, sensualidade, medo…

Ana Cristina César

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas    Continue lendo


Quando começa a ficar muito bom eu ou desconfio ou dou um passo para trás. Clarice Lispector (Um sopro de vida).

Elevo-me na fonte seca e na luz fria (Um Sopro de Vida). 

 Com a ponta dos dedos não se brinca. É pela ponta dos dedos que se recebem os fluidos (A Via Crucis do Corpo).


Quem sou eu?

Sou o amado de Deus.

Quem é Deus?

Meu namorado.

Que fez para merecer isso?

Durmo embriagado,

carrego cruz,

masturbo-me ajoelhado.

Sois feliz?

Tenho compaixão.

Onde se amam?

No banheiro, no corredor,

na sala de projeção, no elevador.

Quem é mais fiel?

Deus compartilha seu corpo com muitos.

Quem beija melhor?

Ele, quando faz as barbas

ou pede-me para tocar suas chagas.

Quem ama mais?

Sou compulsivo,

faço greve de fome

e não durmo antes do galo cantar.

Deus manda bem?

É penitente.

 

(Tom, a risco da excomunhão)


O QUE RARAS VEZES A FORMA

REVELA.

O QUE, SEM EVIDÊNCIA, VIVE.

O QUE A VIOLETA SONHA.

O QUE O CRISTAL CONTÉM

NA SUA PRIMEIRA INFÂNCIA.

Murilo Mendes


O corpo de B fora atirado pela janela e a polícia confiscou seus parcos pertences.

Havia um brinco em formato de maçã nos lóbulos de B.A polícia confiscou também.

Na noite anterior tomamos sorvete na saída do cinema. Ele sonhava com Veneza e uma camisa de flores estampadas. Admirava João Cabral de Melo Neto pela musicalidade nordestina dos versos de “Morte e Vida Severina”.

Colecionava frascos vazios de perfumes e rótulos de bebidas. Não fumava e seu corpo adolescente era disputado pelos cínicos da Savassi.

Defenestram B sobre a calçada e a polícia confiscou seus brincos de maçã. Apenas um, porque o outro fora rasgado com toda a cartilagem.

TOM


A rua tem três tempos,

o primeiro no inverno.

De que lado amanhece, não sei,

há uma vidraça, e brilha,

e o tempo envelhece.

Somos a hora, e a luz

é o que nos devora.

De que lado anoitece, eu sei.

Há uma cruz crescendo para os lados do mar.

Lúcio Cardoso, autor de “A Casa Assassinada”