Dario, precocemente envelhecido pelo álcool, atravessa os dois últimos quarteirões que desaguam no centro da cidade para cumprir aquilo que denomina como sua “prescrição diária de tédio”, em outras palavras, o desconforto de refazer o mesmo percurso deixando para trás o cheiro de esgoto e a paisagem gasta do subúrbio – não que o centro da cidade não tenha seus odores desagradáveis também, mas pelo menos as pessoas fingem que não sentem ou cruzam por ele com sua pose de celulares e olhos encharcados de veleidades. Na cidade, é possível ser irônico e doce ao mesmo tempo, entrar dentro de uma espelunca chique batizada cybercafé e xingar com classe ao telefone. Decididamente este paraíso falsificado agrada Dario, assim como a parede tangerina-fake do prédio onde trabalha, o instituto legal, depósito de corpos do maior distrito policial da cidade para onde são enviados a maioria dos jovens traficantes abatidos em confronto com a polícia. Nessa manhã, ainda com ranço de ressaca, Dario vai ser surpreendido ao abrir o saco plástico com o cadáver e descobrir que ainda está vivo. 

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