Leia trechos de cartas para Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade se correspondeu com muita gente, de todo o país, durante toda a vida.

A partir de pesquisas no acervo do poeta na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio, a Folha localizou amostras preciosas dessa produção, seja com interlocutores mais célebres, como Graciliano Ramos, Cecília Meirelles, Carlos Lacerda, Dalton Trevisan e Chico Buarque, a vários nem tão ilustres assim.

Evitou-se investigar a troca epistolar mais conhecida de Drummond, com escritores como Mário de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral, justo porque parte dela já foi bem explorada, inclusive com livros editados a respeito.

Leia a seguir trechos de cartas entre o poeta mineiro e alguns dos seus centenas de “amigos postais”.

 

ILUSTRES

De Drummond para Graciliano Ramos, 1945:

“Meu caro e grande Graciliano: Até o mais espinhosos dos amigos –ou dos críticos– reconhecerá em ‘Infância’ a obra de arte que ela realmente é. Nada lhe falta, nada lhe sobra. A palavra justa exprimindo sempre uma realidade psicológica ou ambiente; a notação precisa; a dosagem sábia; a economia absoluta de efeitos, notações, recursos. Enfim, um desses livros que a gente desejaria ter tutano para escrever, e que lê com uma admiração misturada de raiva  pelo danado que conseguiu compô-la: raiva que é o maior louvor, tanto vem ela impregnada de entusiasmo e prazer. (…)”

De Drummond para Clarice Lispector, 1945:

“Clarice, querida: Ler ou reler você é sempre uma operação feliz: descobrem-se coisas, aprimora-se o conhecimento das descobertas. Senti isso percorrendo “De Corpo Inteiro”! e “Visão do Esplendor”. Obrigado, amiga! O abraço, a admiração, o carinho do Drummond.”

De Dalton Trevisan para Drummond:

1946: “A sua carta de estímulo valeu como o melhor prêmio e deu-nos mais vontade de queimar as últimas pontes. Somos moços, queremos um lugar no mundo e pesa sobre nós, de certo modo, a responsabilidade terrível de virmos a ser o mundo melhor de após guerra… Já lhe remeti o 2º nº de JOAQUIM, em que publicamos o seu ‘Caso de Vestido’, como a homenagem dos moços do Paraná ao maior poeta vivo do Brasil. (…) Remeti-lhe ainda um exemplar da ‘Sonata ao luar’, pobre novela de um rapaz de 20 anos em dificuldades afim de exprimir os estados de alma de um velho de 30! Em todo caso, foi o melhor que pude fazer’.

 

1955: “Meu caro Carlos Drummond: leio as suas cartas, a de agora e outra, de julho de 1946, onde se referia a Sonata do Luar, que achava um ‘bom começo’, para quem tem’… alguma coisa a contar. Você tem. É ir se despojando da visão ‘literária’ das coisas e procurando fixá-las na sua expressão própria, na sua complexidade e mistério, abandonando as sugestões fáceis, as comparações que são quase sempre insuficiência da expressão, as bonitas palavras, as frases de efeito. Mas v. me declara que tem vinte anos, e não preciso dar-lhe lições daquilo que irá aprendendo por si… etc.’.

[Dalton pede então que Drummond faça comentários sobre novos escritos]: “Serão umas 30 páginas datilografadas, você leria quando quisesse e se quisesse e depois me devolvia, com 2 ou 3 linhas: Dalton, você é advogado, porque não se dedica às causas? E, à sorrelfa, eu piro. Com um grande abraço, Dalton Trevisan”.

De Chico Buarque para Drummond, 1972:


“Carlos Drummond, meu amigo Roberto Freire mandou-me um exemplar do ‘Jornalivro’ e uma carta dizendo que está enviando outro ‘Jornalivro’ para Carlos Drummond de Andrade mas não consegue escrever nada, fica todo trêmulo, etc. E diz: ‘Será que não daria para mandar-lhe o Jornalivro em meu nome, pedindo descaradamente pra ele opinar a respeito do mesmo? Basta que ele saiba quem somos, nossas lutas e problemas tentando fazer jornalismo sem autocensura, numa empresa sem patrões, só feita por jornalistas duros e marginalizados’. O que ele quer é uma frase sobre a idéia desse lançamento para usar na divulgação ‘juntamente com a de outros artistas e intelectuais’. Quanto a mim, fico sem jeito, entrei de Cristo na história, apesar de achar o negócio bacana. Deixo o envelope na portaria, peço desculpas e dou no pé. Um abraço apavorado do, Chico Buarque”.

 

De Augusto Frederico Schmidt a Drummond, sem data:

“Pelo Amor de Deus! Para [o periódico] ‘As Novidades Literárias me aarranje colaboração sua, João Alphonsus, outros bons também. ‘Desculpe a intimidade, mas estou precisando tanto que perdi a cerimônia. Creio que é uma tentativa razoável. Prosa seria o ideal. Poesia muito bom. Notas de crítica, qualquer coisa. Não se desinteresse. Por favor, senão não sei como aguentar mais.”

De Carlos Lacerda para Drummond, 1975:

[no Natal, Lacerda envia bilhete oferecendo um livro da Nova Fronteira, editora que criou] “Para Carlos Drummond de Andrade, que não gosta de mim mas certamente gosta de Fernando Pessoa e há de goastar do Otávio Araújo, a Nova Fronteira oferece, Natal de 75, Carlos Lacerda”.

De Drummond para Lacerda, 1975:

“Agradeço-lhe vivamente, e à Nova Fronteira, o magnífico exemplar de ‘Ode Marítima’ de Fernando Pessoa, com que me distinguiram neste Natal. Realmente, é um fino objeto de arte, a que Otávio Araújo deu contribuição relevante, para maior glória do poeta. Parabéns à arte gráfica do nosso país. A afirmação de que ‘não gosto de você’ seria pelo menos exagerada, se não fosse, como é, totalmente errada. Ninguém é indiferente ao ‘charmeur’ fascinante que você é, e mesmo os que supõem detestá-lo, no fundo gostam de você. Gostam pelo avesso, mas gostam. Quanto a mim, tenho presente que fomos bons camaradas na luta perdida da ABDE, e que lhe dei o meu voto para Governador (voto de que não me arrependi, em face dos lances criativos do seu Governo). Apenas, discordei de posteriores atitudes políticas de você, o que é coisa comum na vida, e não afeta relacionamento pessoal. Certo?”

De Lacerda para Drummond, jan.1976:

“Apresso-me em responder à sua pergunta datada de 25 de dezembro: certo. Foi bom que lhe disesse e ótimo q você falasse, na carta. Haviam-me dito isso, e eu remordia a mágoa, pela muita admiração que lhe tenho, e não só intelectual, pois respeito também a sua maneira de ser, a sua integridade essencial. Transmiti à Nova Fronteira o seu elogio, que será por todos bem, isto é, devidamente bem recebido. Saúde e paz lhe deseja, com um abraço, o Carlos Lacerda.”

NEM TÃO ILUSTRES:

De Laudinor Brasil (Vitória da Conquista-BA) para Drummond, 1944:

“Com a presente, estou lhe enviando um soneto que escrevi, após a leitura do seu grande livro de admiráveis poemas – Poesias. Que tal? Presta? Não presta? Pouco importa. Tem para mim um sincero valor: –a intenção de rende ruma homenagem ao grande poeta que, ao lado, ou melhor, à frente de Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Vinicius de Moraes e outros– vem enriquecendo, com a cooperação de príncipe indiano, a poesia brasileira.

[ e vem o soneto]

Destino…

Como Carlos Drummond de Andrade, achei
Uma pedra tambem no meu caminho.
E, porque a vi, a meditar sozinho
Os segredos da vida desvendei.

Vi que o Destino é sempre o eterno rei,
Tiranico, sarcástico, escarninho.
E vi, morrendo, à voz do rei mesquinho,
As ilusões mais doces que eu sonhei

[o poema e a carta continuam] (…)”

De Drummond para Laudionor Brasil, 1944:

“Recebi há dias sua carta e o soneto que a acompanha. Muito obrigado. Mas confesso-lhe que me surpreendi ao ver surgir, ao lado de minha modesta e atacada ‘Pedra no caminho’, um soneto que lhe interpreta e desenvolve o sentido. Porque a referida pedra –vou usar de toda a franqueza– não tem sentido algum, a não ser o que lhe dão as pessoas que a atacam e com ela se irritam. É uma simples, uma pobre pedra, como tantas que há por aí, nada mais. O poema (se assim se pode chamar) em que ela aparece não pretende expor nenhum fato de ordem moral, psicológica ou filosófica. Quer somente dizer o que está escrito nele, a saber, que havia uma pedra no meio do caminho, e que essa circunstância me ficou gravada na memória. Como vê, é muito pouco, é mesmo quase nada, mas é o que há. Suas palavras a respeito de meu livro são muito generosas. Mas acho que não têm razão de ser. O melhor é nós contemporâneos não nos julgarmos uns aos outros. Já é tão difícil e dá margem a tantos erros julgarmos os antigos! Ninguém sabe o que vai ficar do que se escreve em nosso tempo.Provavelmente ficará o que hoje não agrada ou não é percebido. Tudo é muito nebuloso e discutível, no presente. E quase nada resiste ao tempo. Já não falo na posteridade: falo em cinco, dez anos mais tarde…

Desculpe se estas palavras lhe pareceram mal humoradas, pois ralmente não o são. Minha intenção é o menos irritante possível. Quis ser sincero com um patrício distante, que me escreveu sobre poesia e que revela, talvez, um excessivo entusiasmo, de que eu não participo. Agrada-me saber que em Conquista alguém se preocupa com versos e se lembra de escrever a outra pessoa que também se preocupa com eles. Mas não convém admirar demais: e eu lhe juro que nem eu nem nenhum dos poetas citados em sua carta somos príncipes indianos, que enriquecem a poesia brasileira.

Cumprimenta-o com simpatia cordial, contente por havê-lo conhecido.

De Drummond par Zaida Maria (Belo Horizonte-MG), 1979:

“Não fiquei inimigo de Belo Horizonte, não. Nem podia ficar. Devo a esta cidade muitas das mais belas horas da minha vida, e tenho nela excelentes amigos. Além de mortos mais do que queridos. O que fiz no poema “Triste Horizonte” foi dar vazão à minha revolta de amigo da capital, contra duas espécies de atentados à sua beleza, à sua amenidade, à sua paz: o mercantilismo religioso e a exploração inadequada do minério.

Esta revolta perdura, porque perduram as suas causas, mas não elimina o meu caso-de-amor antigo com Belo Horizonte, cidade em que fui jovem, me casei e tive dois filhos, e em que se desenvolveu minha vida intelectual. (…)

Sou de natureza pouco viajeiro, e só por tristes motivos, nos últimos anos, pude ver Belo Horizonte: para visitar enfermos, sepultar e até trasladar despojos veneráveis, de Itabira para o Bonfim. E essas viagens me deixaram dolorida lembrança, como é fácil de entender.

Mas um dia em que surgir motivo para reencontrar a minha Belo Horizonte, dando as costas, tanto quanto possível, às causas da minha inconformidade, então estarei aí, de bom grado. (…)”

De Soraia Leraik (Rio das Ostras-RJ) para Drummond, 1987:

“Querido Drummond, tenho certeza que você sabe o quanto me senti feliz em receber seu livro. Eu esperava que você me respondesse, mas não acreditava. Entende, né? Quase morri. Foi muito bom. Te escrever me deu sorte. Daquele dia pra cá muita coisa mudou. Não levei a menor fé no emprego da prefeitura, mas aos pouquinhos as coisas estão se esclarecendo e se acomodando (…). Drummond, acho que já estou abusando de você, mas é tão gostoso te escrever. Eu poderia te escrever melhor, mas é que que[neste ponto a escrita é interrompida pelo adesivo de um ursinho]ro te escrever como falo, senão não faz sentido. Aí, me perco.”

De Drummond para Zilah Corrêa de Araújo (Belo Horizonte-MG), 1969:

“Eu, pecador, me confesso: me culpa, mea culpa, mea maxima culpa… Não incluí você na antologia mineira, falta que cometi com relação a muita gente boa. Apesar de fazer o livrinho com 250 páginas (…), só consegui botar lá dentro 116 autores. (…)”

De Drummond para Anna Maria Badaró (Campinas-SP):

julho de 1984: “Sua carta não é carta, é uma conversa boa, descontraída, e adoro papos assim. Como se a gente estivesse conversando de verdade, no sofá, no bar, sei lá onde. Obrigado pelos poemas. São bem você, rica de personalidade, sentimentos reações puras diante da vida (…)”

agosto de 1984: “(…) Claro que ficarei feliz no dia em que você vier ao Rio e me disser: ‘Sou Anna Maria Badaró’. A gente se entenderá como companheiros de infância, por cima do arco-íris dos 80 anos. (…)”

 

De Drummond para Yola Azevedo (São João da Boa Vista-SP), 1982:

“Na leitura observei pequeninas coisas, que lhe transmito pelo meu vezo de reparar em coisas pequeninas e dar-lhes importância formal. A primeira não será assim tão mínima, por isso lá vai de saída. Eu acho que o problema que se apresenta ao escritor novo, atualmente, é estabelecer certo equilíbrio natural entre linguagem escrita e linguagem falada. Ele precisa usar o vocabulário e a construção do dia, mas deve utilizar as expressões antigas e elegantes que constituem o tesouro da literatura, representado, digamos, por um Machado de Assis. Na boca de uma personagem, cabem todas as gírias e modismos referentes ao seu meio social, mas já na escrita do narrador eles devem ser evitados. Dizer por exemplo que uma sucessão de mortes “é incrível”, está bem quando é a pessoa imaginária quem fala, mas para o escritor nada é incrível, inenarrável, assombroso. Os adjetivos desse tipo são uma fuga à obrigação de definir o fato ou a sensação. Uma sucessão de mortes, brutal e imprevista que seja, pode ser contada também de maneira brusca e seca: “Perdeu o irmão num acidente, o pai de infarto, a mãe de trombose. Em três meses.” (Ou cinco, ou seis). Ou coisa parecida. Já o leitor, vendo isso, tem o direito de dizer: “É incrível!”. (…)

Acho bom, também, evitar expressões esteriotipadas, como “divino milagre” (todo milagre é divino), “fazer das tripas coração”, “mergulhar num mar de tristeza”, que são lugares-comuns. Deixar de lado, igualmente, citações desnecessárias, como a do inferno de Dante, que se popularizou e é usada por todo mundo que nunca se aproximou da “Divina Comédia”. Citação é ótima quando totalmente inesperada. (…)

Repare como a palavra “muito” nem sempre indica muito, mesmo. Às vezes “senti falta” diz mais do que “senti muita falta”. O substantivo bem empregado é sempre forte em expressividade, e não raro dispensa a muleta do adjetivo.

Como você vê, são coisinhas, pinçadas pela mania que cultivo, e que você acatará ou não, sem o menor constrangimento. Por favor, não me tome por um censor literário, crítico ou coisa que o valha; tenho horrora essas coisas, mesmo porque não tenho formação especializada para criticar, e confio muito na autocrítica do autor, que se desenvolve com o tempo até tornar-se afiadíssima. Se me permiti apontar essas coisicas foi porque confio em sua força e compreensão. Valeu? (…)”

De Drummond para Edmílson Caminha (Fortaleza-CE):

1982: “Haverá nada mais fino, obsequioso e encantador do que um casal cearense? Vocês dois nos maravilharam com o belíssimo presente do artesanato local, que eu chamarei, com justiça, de objetos de arte. (…)”.

1983: “Sua amizade é das que não falham _espécie preciosa e reconfortante. Envelhecer não é assim tão difícil quando se conta com esse apoio moral. Obrigado pelas palavras de carinho e pelo inigualável doce de caju, uma das glórias cearenses que não me canso de celebrar… e de degustar. (…)”

 

De Adelaide Petters Lessa (São Paulo) para Drummond, 1970:

“Grão de milho Drummond, boi calendário
que se torna, de velho, pequenino,
se ocupas teu lugar de sol na roda,
do centro escuro vens neo-bezerrinho.
Recebe de tua mãe ultralevíssimo
beijo de leite em pasto azul-lendário
e de teu pai Andrade o benefício
de rir do Cafas-Crèpe funerário.

Novamente contemplo com ternura e alto respeito a sua luminosa ‘Comunhão’, meu poema predileto em seu Boitempo. (…) O crítico da ‘Folha de S. Paulo’, Nogueira Moutinho, por intermédio de uma professora amiga, pediu meus versos e sua carta para ler, e depois me perguntou: Já se encontrou com CDA? Pessoalmente, não. –E se o encontrasse? –Eu… acho que… emudecia.

De amor, de admiração, de respeito, de agradecimento.
Creia-me sua fiel