• Dona de um rosto sedutor e de um olhar felino, um irreconhecível sotaque estrangeiro e uma postura de diva de cinema.

  • É esta a imagem que temos de uma das grandes damas da literatura brasileira, Clarice Lispector.

  • A biografia, lançada nos Estados Unidos, chegou ao Brasil e já se encontra entre os livros  mais vendidos nos rankings das livrarias.

  • Talvez o sucesso da obra de Benjamin Moser resida no fato de o autor revelar aquilo que a própria Clarice fazia questão de esconder: seu passado familiar e sua infância no Nordeste do Brasil, que nem de longe tinham a ver com as jóias suntuosas e os prêmios acumulados ao longo de sua respeitada carreira.

  • A saga trágica da família Lispector como refugiados judeus ucranianos, perseguidos pelo regime comunista instaurado pela Revolução Russa, é reconstituída a partir de depoimentos de parentes e amigos, além de trechos dos escritos da irmã mais velha de Clarice, Elisa.

  • O cenário de humilhação, miséria e violência, como o episódio do estupro da mãe da escritora por soldados do exército Branco (que a infectaria com uma doença que era fatal na época), fez parte do cotidiano dessa família até sua chegada a Maceió, nos anos 1920.

  • Escrito inicialmente para um público de língua inglesa, a obra se preocupa em descrever o contexto político e cultural do Brasil durante a vida de Clarice, sendo, mais do que uma biografia, um livro de História, cuja narrativa de romance faz com que, sem notar, o leitor termine rapidamente o grosso volume.

  • No fim do livro, percebemos que a vida de Clarice, repleta de enigmas e silêncios, estava dispersa pela vasta obra, e que em seus diversos personagens havia pedaços de sua biografia.

  • E só assim entendemos a frase da autora: “Meu mistério é não ter mistérios”.

(Texto de Cristiane Nascimento para a Revista da História da Biblioteca Nacional, edição nº 53,fevereiro/2010.)