Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha,
trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe
na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é
cinema, não é epopéia, não é arte. É — repita comigo — vídeo institucional. Pra
ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial
mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não
enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do
caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de
merda? Faça-me o favor.

Ok, chega de papo. É só dirigir a porra da tua mente pra nova linha de embutidos
de frango da Granja Itaquerambu. Podia ser qualquer outro tema, os
cristais de Maurício de Nassau, a cavalgada das Valquírias, a vingança dos baobás
contra o Pequeno Príncipe. Que diferença faz? Pensa que são os embutidos
de frango do Nassau, a cavalgada das mortadelas, a vingança dos salsichões
contra o Pequeno Salame. Pensa no target do vídeo: seres humanos a quem
coube o karma nesta encarnação de vender no atacado os produtos da Itaquerambu.
Pensa no evento em que o teu vídeo vai passar — vários eventos, aliás,
todos no mesmo dia em todas as filiais do Brasil. Os seres humanos vendedores
de embutidos verão teu vídeo e serão apresentados ao salsichão, ao salame
e até à mortadela de frango, heresias saudáveis em matéria de junkyfood que
a Itaquerambu vai lançar no mercado. Mesmo a tradicional salsicha e a insuperável
lingüiça de frango vão ser relançadas com outra formulação, segundo
eles dizem. Quer dizer, em vez do jornal reciclado de praxe, os putos vão adicionar
algum tipo de pasta de lixo orgânico pasteurizado na mistura, imagino,
mais uma contribuição da Itaquerambu para um planeta sustentável.

Trecho de “Pornopopéia” de Reinaldo Moraes

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