Saber que um escritor era ou não gay não o torna melhor nem pior, nem influi no poder de sua literatura.

Mas não custa nada conhecer , por exemplo que a figura que inspirou a namorada do narrador, Albertine,“Em busca do tempo perdido”  , tenha sido Alfred Agostinelli, chofer do escritor.

Como bem explica o escritor Chico Lopes (portal Cronópios) :

“A estratégia de Proust para falar de seu amor por Agostinelli – transformá-lo na atrevida e furtivamente libertina Albertine, que o narrador conhece em meio a outras garotas “ousadas” (a descrição parece se aplicar melhor a um bando de garotos mal-comportados) no balneário de Balbec – é poder projetar no personagem os ciúmes que sentia de seu amado chofer. “

 

Mas Proust teve também outros amores, continua o escritor :

“Com o músico Reynaldo Hahn, com Jacques Bizet, com Antoine Bibesco, com Lucien Daudet, com Bertrand de Fenelon, com um garçom do Ritz e finalmente com um sueco que descreve meio como um protótipo de “garanhão” escandinavo.

(…) Á medida que Proust vai trocando seus namorados artistas por homens mais comuns, trabalhadores e heterossexuais, o sofrimento aumenta. Como muitos homossexuais, Proust quer arrebatar o difícil – melhor, impossível – amor dos “homens de verdade”. É uma obsessão que o deixa infeliz e ávido de afetividades que só podem ser compradas na moeda da má-fé. A razão de sua firme crença na não-reciprocidade em casos de amor pode estar aí. Deseja-se sempre o macho não-entendido, mas bem se sabe que “um homem de verdade é aquele que ama mulheres de verdade”, como suspira o lírico Molina, de Manuel Puig em “O beijo da mulher-aranha”. Proust dramatiza essa rejeição e, por seu talento, consegue universalizá-la. É perito em detectar as precariedades de todo sonho romântico.”