Da esquerda para a direita, as irmãs Tania, Elisa e Clarice Lispector em fotografia tirada na década de 1920

 “Eu perguntei um dia desses à Elisa, que é a mais velha, se nós passamos fome, e ela disse que quase”.

Clarice Lispector

Elisa hoje é mais lembrada porque “No Exílio”, seu segundo romance, virou fonte para pesquisadores de Clarice. O livro, autobiográfico, segue uma jovem judia desde a fuga pela Europa com os pais e as irmãs até a adaptação ao Brasil, numa série de humilhações e misérias. Clarice, nove anos mais jovem, não teria como se lembrar do que a irmã conta ali –era um bebê na ocasião da fuga– e a parte de que se lembra ou soube depois ela preferiu nunca explicitar.

Elisa, que nunca casou nem teve filhos, dedicou aquelas páginas aos sobrinhos, em especial a Nicole –neta de Tania, a irmã do meio. O texto foi concebido para que, crescida, a sobrinha-neta soubesse o passado da família.

Quando Elisa morreu, seu espólio passou à irmã Tania, que o manteve praticamente intocado. Com a morte de Tania, em 2007, sua filha, Márcia Algranti, e a neta, Nicole, abriram o acervo a pesquisadores.

Para além da temática judaica, “Retratos Antigos” ajuda a esclarecer ao menos um ponto nebuloso da biografia de Clarice: a doença que matou, lentamente, sua mãe. O texto explicita que Mania Lispector sofria de hemiplegia (paralisia parcial do corpo) e que esse estado resultou de um “trauma decorrente daqueles fatídicos pogroms”.

A primogênita de Pinkhas e Mania Lispector lançou o primeiro livro, “Além da Fronteira”, em 1945, aos 34 anos, dois anos após a estrondosa estreia de Clarice, com “Perto do Coração Selvagem”. Depois, publicou mais seis romances –o quarto, “O Muro de Pedras”, considerado o seu melhor, recebeu prêmios da editora José Olympio e da Academia Brasileira de Letras– e três volumes de contos.

Afora o que hoje está em sebos, a obra de Elisa quase desapareceu. Um único romance, “No Exílio”, está à venda pela José Olympio, em reedição de 2005. Na ocasião, a editora comprou também os direitos de “O Muro de Pedras”, mas as vendas fracas de “No Exílio” a fizeram “repensar o projeto da autora na casa”, segundo a gerente editorial, Maria Amélia Mello.

Fragmentos de matéria publicado no jornal Folha Online