Meu amado Pasolini,

Hoje é

um dia azul de maio e eu aqui,segunda-feira de manhã, olhando a roseira do pátio cheia de botões, fechei a pasta com a tradução das tuas histórias e fiquei pensando em ti.

Estranho: quando penso em ti, das tuas muitas imagens, me fica sempre uma na cabeça – aquele rosto um pouco endurecido demais, com muitos vincos em torno dos lábios apertados, e um brilho nos olhos. Aquele brilho que têm os olhos das pessoas que viram coisas que as outras pessoas não ousaram ver.

Lendo essas tuas duas histórias – romances curtos, novelas, confissões de um amor muito pessoal: que importa, afinal, o nome? – , além do teu rosto marcado, ficaram muitas coisas na minha cabeça. Antes de mais nada, a culpa que te atormentava por esse amor que chamam de homossexual, e a força do teu impulso em direção ao prazer de repente e sempre cortado pelo proibido de fora ou de dentro de nós. Tão cego esse impulso, e tão violento,que te custou a vida… Mas acho tão bonito teres insistido, e gosto de acompanhar teus passos por essas estradinhas poeirentas do interior da Itália, atrás de meninos fugidios feito pássaros,e o teu coração católico e anárquico chamando de impuros esses atos que não têm nome quando botam dessa região escondida e funda em nós, onde se passam nossas verdades.

E te castigavas,mas não desistias, e do conflito entre o proibido e o sagrado nasciam histórias como essas duas, e teus filmes, teus poemas, teus sonhos. Teu jeito vigoroso e ao mesmo tempo doce de tentar modificar o que nos cerca.Fico pensando, depois, enquanto o telefone toca e não atendo, que se existe alguma forma de modificar o mundo e as organizações sociais repressoras dentrodele, talvez seja a dos poetas uma das mais eficientes, quando abrem o coração para, devagar e sofregamente mostrar aos outros tudo o que se passa dentro dele. É nesse momento que conceitos como moral, certo, errado, bem ou  mal deixam de ter sentido.

Fica no final de tudo só a vida que flui e reflui sem nome,imensa. Porque nada do que possa se passar no coração humano é vergonhoso.Nada é impuro quando acontece aquele movimento mágico de transformar a vida em arte.

Penso em ti quando a vida me pesa e as pessoas  batizam com nomes sórdidos esses lados escondidos da emoção. E fico sempre mais forte,mesmo sentindo saudade, sem saber se te alcanço aí, nesse outro lado de todas as coisas,para onde um dia também irei.

Fica cheio de luz, um beijo do

CAIO FERNANDO ABREU

Sampa, maio de 1984.

Notas do editor : Pasolini foi espancado e morto no dia 2 de novembro de 1975. numa praia distante de Ostia por um garoto de programa. Caio Fernando Abreu faleceu no mesmo dia de Mário de Andrade : 25 de fevereiro.