Cinco poetas dos anos 70 não se enquadravam nos padrões estabelecidos pela ditadura militar.

Os versos de Ana Cristina César, Cacaso,Chacal, Francisco Alvim e Paulo Leminski usam psicodelismo e irreverência para abordar velhas angústias da alma, sensualidade, medo…

Ana Cristina César

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas   

 Cacaso

Descartes

Não há
no mundo nada
mais bem
distribuído do que a
razão: até quem não tem tem
um pouquinho

Chacal

Ontem

ontem hoje amanhã e sempre
a mesma coisa
às vezes varea
escassa rarea
vaza enche esvazia
depende do dia

Francisco Alvim

SONHAR OS HOMENS CANIBAIS

Sonhar os homens canibais
que moqueiam as carnes do combate-
em cada mão uma cabeça
nos ombros as pernas guerreiras

Lembrar os degraus da ilha
que algum passo há de descer.
Com paciência esperar

Pensar o mar

(in Lago, Montanha, 1981)

LEMINSKI

Apagar-me

Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.

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