“Confesso que vivo na perplexidade.

Ando pelas ruas, olho a vida, leio os livros e escuto as histórias: encontro um sem sentido que me dá a razão, uma fragmentação que não me engana, porque a vida pode ser uma metáfora abstrata, mas o modo de viver impõe suas faturas.

Quando mais tarde me aproximo do sentido das coisas, das explicações, das decisões, tudo deixa de ter razão.

Por isso vivo na perplexidade, quero dizer, no frio.

O frio é para mim a solidão de um olhar, a consciência de não habitar na temperatura das decisões, o sentimento de viver em uma sociedade onde o bem e o mal são códigos de cinismo, inexistências, sombras borradas pelos argumentos contundentes da realidade.

Os olhos do poeta, que não querem integrar-se nesta realidade, devem-se acostumar as borraduras más que às intuições, às ruínas mais que aos jardins.

“Sobre Las flores del frio”, Confessiones poéticas – Luis García Montero poeta espanhol.

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