Há os meus lábios, certos dias,

que não conseguem encontrar um sorriso duradouro

há os meus pés que tropeçam

sobre tapetes sujos e um homem

que deixou de me chamar

Há cafés amargos e macarrões que passaram do ponto

inundações, terremotos e casas sobre a areia.

Há dezenas de currículos expedidos,

editores, professores e aluguéis por pagar.

Há queijos estragados,

tubos de pasta de dente vazios,

o frezzer quebrado e o caixa ao lado

que não sabe quem são os guerrilheiros.

Há certos olhos em que a vida está em outro lugar.

E há ainda o mesmo presidente,

recomendações e um homem que jamais me beijou.

Há sms tristes e a gasolina

cara demais, a máfia em toda parte,

pessoas mortas no mar.

Há aqueles que se decepcionam,

quando enfim me vêem chegar

mas sem meu irmão.

E sem dúvida também ainda há um papa

(mas não é mais o mesmo),

há batalhas pela vida dos não nascidos e há fome.

Há garçonetes iradas e ferroviários

estúpidos e chuva demais para ser verão.

E há ainda mulheres violentadas,

os mortos no trabalho e jovens

dilacerados na auto-estrada.

Há as rosas que secam,

as aranhas que as atacam,

os jeans que não me servem.

Há os meus olhos, certos dias,

que não conseguem encontrar um sorriso duradouro,

há um homem sábio demais para me amar,

o tráfego nas ruas,

o frio nos lençóis.

“Ci Sono Le Mie Labbra” (Há os Meus Lábios), poema da escritora Paola Soriga, nascida na Sardenha). A tradução brasileira é de Mário Araújo, publicado no suplemento literário “Rascunho”

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