E se até o seu anjo da guarda te abandonasse?

Já na estação da Luz senti que me seguia. Profundíssimos olhos negros, pupila se confundindo à íris, jeans azul-claro e uma cândida camisa branca.

Olhos de amparo. Soube de imediato que O pressenti, que Sua existência demasiado forte se impôs, mais delicadamente como possível, e não me tocou.

Não me tomou pelo braço no temor de me assustar. Delicado e Seus cabelos em divina profusão – como embaraçados em ordens superiores, como vestígios das tempestades que sopram do Paraíso.

Como um amor homossexual, sem sexo, caminhamos Ele e eu. Apiedamo-nos das pessoas e as amamos como só os santos e as amantes.

Pousamos juntas nossas mãos, embora evitando tocar-nos, no rosto de todas as senhoras – uma delas que vez passada explodiu em lágrimas, abandonando seu carro de compras no supermercado, como que sem motivo – e afagamos os cabelos das crianças e colhemos lágrimas dos homens que traem e são traídos.

Mas na estação Trianon-Masp, talvez pelo empurra-empurra, talvez pelo peso das histórias das pessoas, deixei cair no vão da plataforma primeiro meus lábios, depois olho esquerdo e em seguida ombro e braço esquerdo inteiros. Desfiz-me do excessivamente pesado – inconsciente, talvez em prol da leveza – sem sangue nem dor.

Mas apenas quando as portas se fecharam, e apenas quando vi o último reflexo do clarão verde que o olho abandonado chamava, antes do mergulho no túnel escuro, vi que Ele ficara lá fora.

Atordoado entre os fragmentos, talvez julgasse que eu voltaria em busca do perdido. Talvez fosse Anjo canhoto, tendo preferido cuidar dos restos ao todo. Talvez se desfizesse como eu e lá chorasse, ou quem sabe só me pudesse guardar por inteiro. Talvez ainda lá aguarde. Talvez, com alguma sorte, tenha tomado outro em Seu seio de amor, um outro para guardar.

Faz-me falta Sua companhia sem rosto e o quente das plumas – único toque permitido – amparando as esporádicas lágrimas. Segui neste dia, desamparado, embora decidido, sem virar o rosto, rumo à estação Consolação.

CONTO DE TOMAZ AMORIM IZABEL

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