Saio do apartamento de Mark ao meio dia e vou para um pequeno hotel na esquina da agência. É um hotel barato, pouco mais que um albergue, e vou para lá porque o apartamento de Mark é sujo, defumado e exposto demais.

A paranoia e o nervosismo que vejo na maioria dos usuários de crack que conheço começaram a me afetar nas últimas três ou quatro vezes que fumei.

Nesse dia, a sensação é mais incômoda, mais persistente e, quando estou no apartamento de Mark, fico na janela vendo o que penso ser carros não identificados da polícia estacionados diante do prédio dele.

Quando amanhece, preciso ir embora dali. Tenho o telefone de Rico e estou quase certo de que consigo convencê-lo a fazer mais uma entrega à tarde. E ele faz.

Passo a noite em claro, apenas eu e as reprises do datado e encardido programa de TV a cabo da Robin Byrd, em que garotos e garotas de programa já meio velhos tiram a roupa e deixam Robin fazer sexo oral neles.

O programa acaba, mas eu deixo naquele canal a noite toda. Assisto a anúncios baratos de disque-sexo, com homens e mulheres nus e seminus, seduzindo a câmera com a promessa de sacanagem por telefone.

O quarto da para um beco e eu me debruço na janela e observo os reflexos de luz que saem dos outros quartos.

Dee vem quando aparece a silhueta de um homem u de uma mulher na parede de tijolos, e eu imagino um milhão de enredos. Às vezes, um som – um estalo baixo, um arrastar abafado, uma janela sendo fechada com força – ecoa pelo beco e, de vez em quando, eu grito “olá” pela janela.

 

Retrato de um Viciado Quando Jovem (título que faz referência à obra de James Joyce Um Retrato do Artista Quando Jovem) conta a viagem de Bill  Clegg ao fundo do poço.Clegg era viciado em crack.

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