“Pode-se saber como são as pessoas e como evoluirão no futuro?

Até que ponto podemos confiar em nossos amigos, conhecidos e sócios, em nossos amores, em nossos pais e em nossos filhos?

Quais são as tentações e fraquezas, ou seu grau de lealdade e sua fortaleza?

Como saber se fingem ou se são sinceros, se interessados ou desinteressados na manifestação de seu afeto, se seu entusiasmo é verdadeiro ou só adulação, calculada lisonja para ganhar nosso apreço e nossa confiança ou para se tornar imprescindíveis e assim nos persuadir de qualquer projeto e influir em nossas decisões?

Tem mais: podemos prever que amigos vão nos dar as costas um dia e se transformar em nossos inimigos?

Quero dizer: imaginar a possibilidade quando ainda são os melhores amigos e por eles poríamos a mão no fogo e deixaríamos cortar nosso pescoço?

Podemos confiar em nós mesmos, em que não seremos nós que mudaremos e entortaremos e trairemos, que invejaremos um dia quem hoje mais queremos e não poderemos suportar seu contato nem sua presença, e decidiremos nos reger só pelo ressentimento?”

Trecho da trilogia “Seu Rosto Amanhã” de Javier Marías

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