O dia em que matei meu pai era um dia claro, de uma claridade difusa,sem sombras.

Ou talvez tenha sido cinzento, daquele cinza que tinge as almas menos propensas à melancolia.

É estranho que esse seja o único detalhe de que não me lembre. E que importa? Matei meu pai como quem mata um inseto.

Não, a imagem é falsa, já que na maioria das vezes há  irritação, quando não medi, em ação ordinária.

Divago, desculpe-me.

Mais exato seria dizer que matei meu pai como quem respira. A respiração regular, que não exige grande esforço para levar o ar aos pulmões.

Trecho de O Dia em que Matei Meu Pai”, de Mario Sabino

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