SUMMER 77

(Ao Gustavo)

Atarantado pelos automóveis,

meus olhos são varados pelo neon,

degusto minhas doses de cinismo nos balcões

molhados pelo vácuo.

As mariconas fustigam meu corpo com olhares sórdidos,

cada olhada fere fundo e cria crostas que se endurecem;

até a noite acabar estes olhares superpostos me tornarão imune.

Avenida São Luís e seus anjos turvos,

supermarketing de pupilas frenéticas,

sob as árvores o poder acaricia e intumesce caralhos lânguidos.

Há pelos corpos em fila uma náusea imprecisa,

eu vejo uma sinfonia de cusparadas e aprendo acordes sombrios

com os quais devo ornar minhas pernas

metidas num blue-jeans rasgado.

Meu camarada uns passos à frente

negocia sua boca de estátua grega perfumada

por conhaque e baforadas

com um pederasta untuoso que pilota

uma reluzente máquina.

Nós viemos do subúrbio numa progressão eufórica,

bebemos várias cachaças & nossos corações acossados

pela média preferem a autocorrosão,

mas é assim que a cidade nos gosta.

Eu vejo funcionários públicos levemente maquiados.

Eu vejo policiais que me tolhem os passos

com ameaças de sevícias.

Eu vejo bichinhas evoluírem num frenesi azeitado

por anfetaminas e um desespero dissimulado.

As mariconas não as buscam,por isso

elas exorcizam a noite com gritos e

vêm nos outros rapazes um “frisson”

de inexistentes limusines.

O poder pelas esquinas gargalha.

Atarantado pelo sono, embarco ríspido num carro.

Logo mais, de madrugada,ejacularei catarro,

voltarei de ônibus com meu amigo,

adentraremos em silêncio o subúrbio

sabendo que algo em nós

foi destroçado.

Poesia publicada no boletim “O Corpo” nº 6″,

São Paulo, 1984, assinado por F.

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