(Alguns anos pós-Dolly)

Decorreram cinco dias desde que haviam-no enterrado. Elvis era uma bicha das mais afetadas, daquelas que costumam esticar o mindinho ao levar o talher à boca. Trabalhávamos juntos na redação de uma revista eletrônica destinada a compulsivos consumidores de índices de mercado financeiro on-line.

À princípio, não simpatizei com o seu jeito arrogante, depois percebi que ele possuía dignidade e autenticidade.Quando um dos jornalistas quis comê-la e fez questão de explicitar seu desejo por toda a redação(éramos apenas cinco, já que os demais colaboravam via computador), Elvis cuspiu-lhe na cara, para que não pensasse que só de mostrar o pau, a bicha se rebolaria para tê-lo sob si.

Elvis era assim: não vendia ou comprava suas afeições. Muito lentamente é que se aproximou de mim, temendo que eu, por ser tido como pequeno galã, julgasse que ele visse interesse maior que seus propósitos, Daí em diante, almoçávamos juntos e ríamos das comparações entre homens e mulheres. Eu olhava a garçonete e ele o baconista. Apontava defeitos estéticos logo aonde mais eu apreciava.Elvis foi o meu melhor amigo. Assistíamos o futebol e o desfile de baile gay. Às vezes,saímos,eu e minha namorada mais elee seu namorado,para pegar um cineminha. Eu prevenia aos desavisados o jeito difícil de meu metódico amigo.

Hoje, encontro-me sentado no mesmo restaurante, rememorando. Dentre cinco minutos Elvis deve passar à porta e sentar-se frente a mim. Será agonizante controlar a taquicardia, não suar. A decisão de usar a mais recente tecnologia,avanço de amadurecimento celular e resgate de memória através da implantação de um ship em vida, partiu de sua família, poderosos fazendeiros das Gerais.

Recebi-o um tanto desconfortado. Ele veio em seu passo modorrento e sistematicamente curto. Perguntou-me se concluíra as tabelas de moedas. Balbuciei um “não”. Em sequida, ele que sempre fora destro,começou a fumar com a mão esquerda, arrumou o cabelo com a direita e olhou para a garçonete. Já esperava um chiste quando ele sorriu maliciosamente e falou: “-Gostosinha, heim?”

Eu não pensei duas vezes: empunhei o garfo e enfie-lhe na garganta. O Elvis continuava morto.

Álvaro Pastore (para o Tom Zine ainda em sua versão papel)

Anúncios