Conto de Márcia Denser

“(…) Conheci Robi precisamente no dia em que eu completava trinta anos, dirigindo amargurada meu automóvel para o analista. (…) Quando o ronco de uma motocicleta ao lado do automóvel sobrepujou a música em FM. (…) Havia esquecido que deixara o vestido levantar, exibindo as coxas, daí Robi, o motoqueiro, aparecer na minha janela. (…) Bem na verdade, fiz tudo para livra-me dele, mas o destino conspirou: (…) Motoca seguiu-me até a vaga da zona azul e, após observar divertido cerca de dezoito manobras humilhantes e malsucedidas, ofereceu-se para estacionar o automóvel de madame. Acertou na primeira. (…) Obrigada. Você tem telefone? (…) Meu nome é Robi. (…) O meu é Diana. Tchau. (…)

Passaram duas semanas. (…) Certa tarde (…) no escritório, eis Robi que surge (…): vamos sair? Caninos pingando sangue. (…) Ele, Robi, o motoqueiro. Era incrível. “Sente-se”, sorri divertida, (…) mas meus dedos tremiam. (…) Saímos. (…) Estávamos num bar. Eu bebia vodca com suco de laranja, ele coca-cola. (…) Classe média alta paulistana, Robi estudava bastante, (…) tinha papai, mamãe, uma governanta romena (…) e só pensava em duas coisas: garotas e moto. (…) Robi tinha 19 anos. (…)

Estávamos na época do Natal. Natal de 1976, (…) mais precisamente no dia 22 de dezembro, sexta-feira, o Robi tinha um problema: a irmãzinha de quatro anos, faltava comprar o presente dela. (…) “Uma boneca”, sugeri (…) e tive de ajudar a pagar. (…) Ele guiava sem destino (a boneca no banco de trás), perdidos no trânsito pesado daquela cidade cheia de luzes. (…) O olhar dele desceu agudo (…) sobre minhas pernas cruzadas. Senti-me desconfortável. Sugeri comermos. Ele disse está bem. (…) Fomos a uma cantina italiana. (…) Ajeitei-me na cadeira, pedi mais vinho, segurei sua mão debaixo da mesa, (…) apalpei suas pernas musculosas debaixo do grosso índigo blue, pedi-lhe para afastar as coxas, mergulhei a mão com segurança. (…) Retirei a mão, voltei ao vinho. (…) Não gostaria de ir para outro lugar? (…) Está bem. (…)

O quarto tinha um espelho redondo sobre a cama. (…) Robi respirou fundo e agarrou-me por trás. (…) Eu disse calma e ele me jogou no colchão como uma bola de pingue-pongue. (…) Deitou sobre mim, tentando desabotoar-me. Esta perdendo tempo, eu disse levantando e me despindo. (…) Estava deitada, fumando, quando sua massa rija desabou sobre mim. Procurei seus lábios mas ele disse não, estou resfriado. (…) Ajeitando-me de bruços, abraçava-me com as palmas e dedos gelados, comprimindo minhas costelas, machucando-me, em vez de acariciá-las. A coisa funciona só da cintura para baixo, como um vibrador elétrico, mas é bom, pensei, deixando-me penetrar rijamente pelas costas, usando, por assim dizer, só uma parte do meu corpo, como se o resto estivesse paralisado, ou morto. (…) Espiei Robi e seu desempenho: (…) braços esticados, mantendo-me firmemente afastada de seu corpo para ver melhor. O que me chateia é esse distanciamento crítico, parece estar consertando a moto – essa máquina de prazer – está olhando a coisa funcionar, (…) mais lento, mais acelerado, mais lento, agora rápido, acelere, mais rápido, mais rápido. Pronto. Terminou. Ouvi Robi ofegar. Continuei de costas. Estendi o braço e peguei um cigarro. (…) Virei-me para olhá-lo: havia algo de comovedor (…) no jovem adormecido. (…)

Vesti-me rapidamente, em silêncio. Fechei a porta sem ruído. Desci. (…) Ao entrar no automóvel, vi o pacote no banco de trás. (…) Carreguei essa boneca tempo demais. (…) Reunindo minhas últimas forças, consegui tirá-la do carro e levá-la até à portaria do hotel. (…) “É para o rapaz do 35. Acorde-o às seis e quarenta e entregue o presente. Com votos de Feliz Natal, pensei. Virei as costas e saí. (…)”

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