Ele pregava “(…) um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; buscar a si, esgotar em si mesmo todos os venenos, a fim de só lhes reter a quintessência. Inefável tortura para a qual se necessita toda a fé, toda a força sobre-humana, e pela qual o poeta se torna o grande enfermo, o grande criminoso, o grande maldito, – e o Sabedor supremo! – pois alcança o insabido.”

Estamos, é claro, falando do poeta precoce Jean Nicholas Arthur Rimbaud (ou somente Rimbaud), precoce e de comportamento considerado ultrajante, que produziu sua obra entre os 16 e os 19 anos e muito cedo abandonou a literatura e viajou pelo Oriente Médio e pela África, onde se tornou traficante de armas. Morreu no dia 10 de novembro de 1891, de câncer, aos 37 anos, totalmente  devastado com a perna amputada e o corpo paralisado, após as mais terríveis agonias, descritas de modo comovente pela irmã Isabelle nas cartas, em sua derradeira estadia no inferno.

Veja alguns trechos aqui compilados e resumidos:

“Tenho sede de temer gangrena. Hoje faz 15 noites que não consigo pregar olho um só minuto, por causa das dores nesta maldita perna. Virei um esqueleto: dou até medo. Minhas costas estão esfoladas por causa da cama;não consigo dormir um só minuto. E o calor aqui está cada vez mais forte.”

“Adeus casamento, adeus família, adeus futuro! Minha vida acabou, não passo de um troço imóvel.”

“Eis o belo resultado: (…)Tremes ao ver os objetos e as pessoas se moverem à tua volta, com medo de que te derrubem e te arranquem a outra pata. Riem-se ao ver-te saltitar. Ao te sentares, tuas mãos estão enfraquecidas, as axilas esfoladas e tens um aspecto de imbecil. O desespero toma conta de ti e permaneces sentado como um impotente completo, choramingando e esperando a noite, que te trará de novo a insônia perpétua, até chegar a manhã mais triste do que a véspera, etc., etc..”

Fonte : “Correspondência de Rimbaud” (Tradução, notas e comentários : Ivo Barroso – Editora Topbooks)

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