Com desenhos requintados e um texto rico,“Berço com Corvos”, dos espanhóis María Zaragoza (roteiro) e Dídac Plà (ilustrações), conta a melancólica história de uma prostituta ruiva com metade do seu rosto queimado, que vive um relacionamento com um cliente suicida por  quem se apaixona.

Os dois passam cinco dias –período que o garoto estipulou para se matar– a contar a história de suas vidas, enquanto usam drogas e são, o tempo todo, visitados pela morte.

Ela teve uma infância difícil. Após o suposto incidente que a deixou desfigurada, passou a sofrer forte discriminação. Largou a escola antes de aprender a ler e perdeu todos os parentes muito cedo. Cheia de traumas, aos 12 anos teve que começar a se prostituir para sobreviver.

O garoto, por sua vez, não conseguia sentir emoções e se envolver com os que estavam à sua volta. Como tanto fazia morrer ou continuar a viver, decidira pelo primeiro ato. Ele procurou a moça por considerar que, com a queimadura, ela estava meio viva e meio morta.

Enquanto o tempo passa, os dois brincam de dar novas versões para suas trajetórias. Por vezes, deixam tudo mais feliz e, em outros casos, tornam as coisas ainda mais sombrias, como um berço de corvos que teria sido implantado no coração da moça para que a morte não se espalhasse pelo seu corpo.

Explorando os limites da fantasia e da realidade, a HQ termina por brincar com o próprio ato de narrar e contar histórias, assim como Miguel de Cervantes em “Dom Quixote”. O protagonista do clássico, aliás, é citado várias vezes pelos personagens, chamado carinhosamente por eles de “o louco”.

A obra segue a escola Neil Gaiman de contar histórias em todos os aspectos, tanto na temática e no ritmo narrativo como nas soluções gráficas, inspiradas no cubismo e muito parecidas com as de Dave McKean, um dos principais parceiros do quadrinista inglês.

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